Arquivo do mês: setembro 2010

Sufrágio Universal – Um engodo

Por Elaine Bardeli democracia

A cada dois anos o cidadão renova suas esperanças vislumbrando uma melhora em sua qualidade de vida. Segurança, saúde, educação, emprego são bandeiras alçadas até por quem, tecnicamente, não tem competência para isso. E o cidadão se deixa levar pelo engodo, fazendo suas apostas.

A história conta a luta do homem pelo direito de escolher seus governantes. Na França, século XVIII, a burguesia derrubou a nobreza e tomou o poder. Desde então, passamos a acompanhar a luta do homem simples e posteriormente a luta das mulheres pelo direito ao voto, como símbolo da democracia e da liberdade. Desde quando quem tem governo tem liberdade? Mas esse já é um outro assunto…

Voltando às eleições e ao engodo, quem está no poder até os dias de hoje são as classes mais abastadas, que não têm a vivência da classe pobre. Como podem saber das reais necessidades destes? Que força os moverá para que lutem em defesa do pobre? Seria esta sua prioridade? Claro que não.

É necessário que saia alguém em meio à classe pobre, e galgue os degraus a caminho do poder, para que o pobre realmente seja representado. O pobre no poder lutando pelo bem do pobre.

DOCE ILUSÃO. Seria como esperar que seu amigo se torne seu chefe e continue sendo seu melhor amigo. As chances são bem pequenas, porque mudando o lado, muda a perspectiva e o interesse. Não tem jeito. Olha aí o pobre, órfão de novo, fazendo suas apostas e renovando suas esperanças, de novo.

Talvez seja importante a cada dois anos ouvir palavras doces que dão esperanças e aquecem o coração. Importante para se manter a ordem: eles lá e “nóis” cá.

A história se repete. Só falta eles dizerem que Deus quer assim.

O modelo econômico cubano não serve?

Por Francisco Beltrão

Recentemente um jornalista estadounidense publicou uma entrevista na qual afirma que o ex-presidente de Cuba, Fidel Castro, havia se manifestado de forma crítica ao sistema político-econômico cubano, dizendo que esse modelo não serve mais.

Fidel Castro retrucou tal informação e disse que foi mal interpretado pelo mal intencionado jornalista .

Pois bem, talvez o modelo cubano não sirva mesmo para o mundo atual, justamente porque vai na contramão da realidade mundial, tenta de todas as formas, apesar do embargo estadounidense há mais de 50 anos, promove justiça social, qualidade em saúde e educação aos menos favorecidos pela ordem mundial.

Num mundo que conta com quase 7 bilhões de seres humanos, os 10% mais ricos da população mundial concentram 70% da riqueza produzida . Por outro lado, 1,2 bilhão são desnutridos crônicos e 2 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza.

Vemos também um cidadão comum estadounidense que consome de 10 à 15 vezes mais que um indiano. No nordeste do Brasil a situação não e diferente quando constatamos que várias famílias ainda hoje, para alimentarem seus filhos,  utilizam o recurso da garapa (água morna com açúcar) por não terem acesso à alimentação digna.

Então, afirmo que se não é combatida a miséria (nem podemos falar mais em errádicá-la) é porque o mundo está centrado na obtenção do lucro, na concentração da riqueza nas mãos de uma minoria preconceituosa, branca, podre e rica.

Desta forma, Cuba, de fato está na contramão da lógica capitalista, o modelo político-econômico cubano de evitar o consumismo desnecessário, de buscar justiça social e dignidade entre seus habitantes, de fato não serve para o modelo adotado por praticamente todos os países do mundo.

Que beleza a propaganda política

Quem é o candidato mesmo?

As Palavras

“As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam; são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.

E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão – e por essa via entram na imortalidade do Verbo. Ao lado de Sócrates , o presidente da junta afixa o discurso que abriu a torneira do marco fontanário. E as palavras escorrem, são fluidas como o «precioso líquido». Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envolta também num murmúrio manso, represo e conciliador. Há de tudo no orfeão: tenores e tenorinos, baixos cantantes, sopranos de dó de peito fácil, barítonos enchumaçados, contraltos de voz suspensa. Nos intervalos, ouve-se o ponto. E tudo isto atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares.

Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que não se oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.

Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte – ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do acto.

Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão”.

“As Palavras” in Deste Mundo e do Outro – Crónicas

Caminho – 1986