Arquivo do mês: agosto 2010

Celebridades despolitizam horário eleitoral

Para sociólogos, personagens denunciam descrédito do eleitor e revelam estratégias dos partidos para ‘puxar votos’

Nem os que esperavam o início do horário eleitoral gratuito para confirmar a tese de que a política não passa de uma grande palhaçada esperavam ver personagens-candidatos como Tiririca, Kléber Bambam, Mulher Pêra e Ronaldo Ésper. “Vote em Tiririca, pior que está não fica”, diz o comediante em seu espaço na televisão e no rádio.
Para o sociólogo José dos Reis Santos Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), apesar de a presença de personagens como Tiririca depor contra o processo eleitoral, o seu programa também denuncia o descrédito nos políticos e a condição da maior parte dos eleitores, que não se interessa por política.
“Ele promete que, se for eleito, vai contar o que faz um deputado. No limite do humor negro, é uma expectativa otimista. Assim ele pensa se diferenciar, pois pesquisas mostram que 50% da população não sabe para quê servem os membros do Congresso”, avalia o sociólogo.
Para Reis, os personagens expressam ao mesmo tempo a curta idade de nossa democracia e as dificuldades com que a população e os partidos manipulam o significado de democracia participativa. “Eles mostram também o pouco apreço com que uma parcela significativa de nossos representantes lida com a responsabilidade de representar a população”, explica.
A socióloga Maria Teresa Kerbauy, também docente da Unesp, acredita que estes candidatos, apesar de terem sido aprovados nas convenções de seus partidos, representam o “voto cacareco”, como era chamado o voto de protesto há algumas décadas. “Em certa eleição um rinoceronte do zoológico de São Paulo, chamado Cacareco, teve grande votação. Seu nome simbolizou durante muito tempo o voto de protesto”, afirma Maria Teresa.

Identificação
Ela avalia que estas candidaturas depõem contra o processo eleitoral e contra a própria política, já que são personagens cômicos e caricatos, que não têm propostas ou qualquer ligação mais profunda com a política. “Tudo o que eles têm é exposição na mídia e isso pode atrair o voto da população descrente. Ao dizer que não sabe o que faz um deputado, o Tiririca acaba criando identificação em boa parte da população”, acrescenta.
Ela lembra que na democracia todos podem se candidatar e o que deve ser questionado com mais veemência é o processo e os motivos pelos quais os partidos políticos escolhem estes candidatos. “Alguns partidos não selecionam os candidatos mais aptos e sim os que têm mais poder de mídia. Assim, eles podem atrair grande número de votos para a legenda e eleger outros deputados, nos quais realmente têm interesse”, acrescenta.
Vale lembrar que nas últimas eleições o estilista Clodovil Hernandes e o cantor sertanejo Frank Aguiar ficaram na lista dos mais votados para a Câmara Federal.
Até a noite desta sexta-feira, a página do YouTube que mantém vídeos com erros de gravação da propaganda de Tiririca tinha quase 600 mil acessos, após três dias de postagem. Alguém acha que ele não vai se eleger em outubro?